Dias Selvagens
Sem ter o que ver, aliás, sem querer ver algumas coisas que tenho guardadas em meu HD, resolvi buscar nos inúmeros CDs que tenho aqui em casa algum filme, principalmente para fazer logo a limpeza urgente que o espaço diminuto do escritório vem pedindo há meses. Então, varando a madrugada, vi Dias Selvagens (1991, de Wong Kar-wai). O filme, que sugere relações afetivas entre vários jovens casais na Hong-Kong da década de 60, é estranhíssimo. (A noite estava abafada, bastante quente e, apesar de as tonturas, falta de equilíbrio e vertigens terem voltado mesmo que em menor freqüência, mesmo assim revolvi levar adiante a proposta de Kar-wai).
O mais engraçado é que, em relação ao diretor Wong Kar-wai, sempre achei que sua obra se resumia apenas ao filme Amor a Flor da Pele (2000): o diretor de um único filme – eu senti exatamente isso na época que vi essa obra exuberante. Pra mim, sempre pareceu um diretor sem passado, e também sem futuro, tanto que, desde quando o assisti pela primeira vez, nem senti vontade de fazer o caminho de volta, regressando passo a passo cada filme seu, nem tampouco senti qualquer angustia pelos seus próximos lançamentos, e não cheguei a ver nenhum deles.
Em Dias Selvagens, o tempo não existe.
A seqüência inicial, assim como quase todas que estruturam o filme, desenvolve-se através de uma estrutura elíptica que, praticamente, nos coloca como que em um labirinto, a partir da ingerência sobre um mesmo espaço sem que, em sua geometria, o tempo se desenrole como parece desenrolar-se em filmes com espaços sucessivos no tempo. Será então a mudança de espaço quem promove a mudança no tempo? Como um mantra, a mesma cena (ações que se efetuam em uma unidade de tempo-espaço) e passos dos personagens (com poucas variações) acontecem repetidas vezes sem que, de repente, notemos sua variação primordial, – a variação no tempo, a não ser em pequenos detalhes, como a personagem adormecida, o relógio nas paredes marcando as horas, o minuto sentido afetivamente por ambos.
(O personagem Yudd (Leslie Cheung), um jovem que aparece de um corredor, aparece repetidas vezes diante de Su Lizhen (Maggie Cheung), que trabalha em uma birosca sempre vazia e vendendo refrigerantes).
O tempo que não existe, torna-se o centro da ação.
Sobretudo porque é a partir de um relógio que, então, Lizhen se apaixona perdidamente por Yudd, cronometrado no último minuto que aponta para as três horas (da tarde ou da madrugada?) e para a lembrança que permanecerá na memória de Yudd daquela jovem belíssima que depois o procura, é aceita e é recusada. Em Dias Selvagens, o diretor Wong Kar-wai busca permanentemente a construção de laços afetivos entre os personagens, ora abrindo espaço para encontros e afetos acontecerem, ora constituindo outros campos de afetos possíveis que, ao final, não chegam a dar certo. Se a primeira imagem que me ficou foi a de um labirinto, outra que se fez mais forte ao longo do filme acaba se aproximando de um caracol, enroscando-se na busca cega de algo que não consegue encontrar talvez porque não exista.
Longe do ventre materno verdadeiro, Yudd amarga a solidão em uma seqüência final silenciosa: arrumando-se sabe-se lá pra onde, preparando-se para encontrar sabe-se lá quem. Mais do que os espaços desoladores, sujos, sem cores e desarrumados que vemos ao longo de todo o filme, em Dias Selvagens, a beleza melancólica da atriz Maggie Cheung se apresenta mais forte e densa do que todo o resto. Em um determinado quadro, escuro e cinzento, Wong Kar-wai desenha sua proposta de personagens a deriva e desolados na tristeza sentida e expressada por Cheung. Nesse momento, o filme deixa os labirintos e caracóis para se encontrar no interior de cada um daqueles personagens sem rumo e afeto correspondido.
Dias Selvagens vale ser visto mais de uma vez!
# TRABALHO
Ontem foi um dia bastante exaustivo.
Passamos o dia todo com os gestores dos Cefet’s e escolas técnicas do Nordeste no Praia Mar Hotel, na Praia de Ponta Negra, uma de nossas praias urbanas. Em função de um curso de capacitação de gestão em EaD, que a Secretaria de Educação a Distância da UFRN ofertará para estes gestores da região, marcamos o encontro presencial para apresentarmos o curso, o Programa E-tec Brasil e levantar alguns pontos que dizem respeito aos desafios e dificuldades para implementação de cursos técnicos em EaD. Foi o representante do MEC quem abriu o evento, e a manhã iniciou a todo vapor.
(O grupo de trabalho que coordenei a tarde avançou em algumas questões).
O meu grupo contava com gestores e professores, basicamente, do Maranhão e Ceará, e levantou pontos na discussão geral que são primordiais para quem trabalha com EaD. Tais pontos se encaixam em três categorias: gestão do sistema (quais são os elementos que o estruturam?), gestão financeira (como, quanto e como remanejar recursos disponíveis ou não?), gestão pedagógica (questões relativas ao acompanhamento, produção de material e avaliação dos alunos).
(Ainda consegui ir almoçar em casa).
Uma questão, que um dos subgrupos fez, resume um dos maiores e novos desafios destes gestores e professores, praticamente, pioneiros na implementação de cursos técnicos a distância no Brasil na magnitude que está sendo pensado pelo MEC: “Como convencer alunos (e os pais) que estão saindo do ensino fundamental, e ingressando no ensino médio, a optarem por um curso técnico a distância; e não somente isso, como, antes de tudo, motivá-lo a permanecer no curso e construir no mesmo a autonomia necessária a um estudante de EaD?”. As aulas práticas também surgiram como desafios, já que os editais que legislam cursos desta área exigem uma carga-horária correspondente a quase 40% da carga-horária total do curso – o que eu não tinha me dado conta até um dos participantes chamar a atenção para o problema, ou seja, para quem trabalha com EaD em uma dimensão maior e a partir de geografias bem diversas da modalidade presencial. Outro ponto apresentou-se na necessidade de serem capacitados no passo a passo para saberem montar um sistema e pensarem o modelo de EaD para as suas instituições e, sobretudo, a definição dos sujeitos envolvidos no processo.
(Uma forma de viver).
Agora meu corpo está cansado (é o que dá deixar de caminhar) e a minha garganta doendo (muita gente, muitas conversas, voz alta). Ao menos, eu não estou mais sentido tonturas, falta de equilíbrio e vertigens, mas ainda não posso tomar café, não durante os dias e o período de tratamento. Se tudo correr como espero, ainda hoje verei No Country For Old Men (2007, Irmãos Coen) que baixei da Internet e amanhã o filme brasileiro que está na programação da sessão Cinemark Cult: Via Láctea – não sei de quem é, do que se trata, quem são os atores, se falaram bem, ou se falaram mal. Mas isso não importa, já que ver filmes voltou a ser interessante.
Masters of Horror
Pro-Life (2006, de John Carpenter) *****
Em um tom bucólico com a natureza ao vento deixando-se balançar em todas as suas arvores, galhos e folhas, o filme de John Carpenter logo rompe com a aparente calmaria, com o movimento natural e sublime da floresta. Todos os filmes de terror começam assim? Tatyana estava ao meu lado vendo essa seqüência inicial, ao mesmo tempo, quando, talvez, relembrava a abertura do episódio Family (2006, de John Landis), que nos mostra uma típica cidade americana amanhecendo com seus habitantes pelas ruas, com as crianças jogando beisebol, as mulheres abrindo seus carros, em mudança, com os homens jardinando e exercendo alguma outra atividade. Em Pro-Life (2006), ao contrário do episódio de Landis, essa calmaria é imediatamente rompida, violentada em seu movimento, transcorrer natural, sem que, como de costume, os personagens e a trama nos sejam didaticamente apresentados.
(Atravessando a imagem, da mesma forma que, posteriormente, a besta atravessa o seu corpo, vemos uma jovem correndo, desesperadamente, pela floresta).
Nesse momento, eu tomei como que um susto! É quando, aos poucos, uma série de perguntas começa a tomar conta: Quem é aquela jovem mulher? Qual o seu nome? Do que ela está fugindo? De onde ela vem? O que aconteceu e o que acontecerá com ela? Ainda que em campos opostos, – suavidade e tensão, imobilidade e mobilidade, fixidez e fuga –, a natureza e a jovem Angelique Burcell (Caitlin Walchs) estavam, definitivamente, irmanadas no mesmo tom, na mesma poesia de seus corpos, impressa, paradoxalmente, com a imagem em câmera-lenta registrando cada passo de Angelique e a cadencia ininterrupta das matas, a partir de alguém que corria mas quase imóvel e de uma imobilidade nativa que parecia querer saltar.
As perguntas não cessam!
A cada seqüência, John Carpenter nos deixa atormentados com tantas imagens sem tantas explicações, personagens que, a todo o tempo, geram perguntas, situações e espaços que nos colocam diante de mais, e mais, indagações.
Em um determinado momento, depois que Angelique Burcell invade e quase é atropelada na estrada, essas perguntas estavam direcionadas para um carro estacionado diante de um portão, parado e como que a espera de alguém. A cada movimento do médico e da enfermeira que, quase atropelaram Angelique, passamos a nos perguntar sobre quem era Dwayne Burcell, por que ele não podia ultrapassar aquele portão, o que cometera e por que o temiam tanto? Perguntas que, seqüência a seqüência, atravessaram o espaço daquele hospital-militar (?), da barriga de Angelique em um crescendo sem fim, anti-natural, para gestar e fazer existir um corpo distinto do seu, diferente do que temos, ainda que próximo na violação e na proteção daquilo que pertence a nós, – ao nosso ventre.
Em Pro-Life, John Carpenter trabalha sobre um processo de invasões em cadeia: um corpo em deambulação que invade a imagem da natureza, que logo ocupa o espaço da estrada e depois atravessa os muros protegidos de uma colônia hospitalar – corpo que, por sinal, é duplamente violado e, imaculadamente, invadido.
TERRA ESTRANGEIRA
(Entre 15 e 24 de janeiro de 200
Um filme me levou a fazer uma viagem!
Em nossos planos, a Argentin – com sua belíssima e charmosa capital – sempre figurou na lista das viagens que realizaríamos ao longo de nossas vidas. Mas o que Tatyana não sabia é que, quando poderíamos ter ficado apenas em Buenos Aires, o desvio para Ushuaia atendia a um chamado cinematográfico (ainda que, continentalmente, distante da imagem real que ficara em minha memória e que fora registrada em um filme brasileiros dos 90) e não apenas para viajar para uma cidade escondida no fim do mundo, encostada no final (ou no início) das Cordilheiras dos Andes e que, a cada movimento, gera a sensação ininterrupta do nada e um permanente contato com o início de tudo. Então, logo a Patagônia entrou como motivo para estendermos as nossas férias para outras paisagens argentinas.
(Ao chegar a Terra do Fogo, o plano era alugar um carro – o que fizemos – e percorrer suas estradas e paisagens, pueblos e córregos, cidades e estâncias).
De fato, conhecemos tudo isso, e mais um pouco… Ushuaia, com todo o seu encanto de cidade portuária e com o título e atmosfera da última cidade do Globo, nos proporcionou belíssimos passeios duarante nove dias, como o que fizemos pelo Canal Beagle (um braço de mar que corta o continente desde o Atlântico e que já foi atravessado várias vezes pelo navegador brasileiro Amir Klink) e outro que realizamos pelas estradas, aparentemente, sem passagens, escorregadias, cercadas por um bosque enigmático de lenhas e castores (sendo a excursão off-road recomendável para todas as idades, sexos e credos… simplesmente, imperdível e imprescindível para quem quiser pisar em terrenos patagônicos mais ao sul!).
(O que me propiciou checar com Joaquim (o nosso guia off-road) como eram as estradas por outras partes fueguinas, pois já pensava eu na viagem pelos arredores com um carro alugado, uma mochila e com Tatyana do lado, é claro!).
Dos nove dias que ficamos em Ushuaia, dois deles aproveitamos para conhecer os arredores – se a locação do carro tivesse sido por três dias, teríamos dormido na Estância Haberton (uma fazenda histórica, com suas reservas, baias, museus internos e história): primeiro núcleo de colonização fueguino onde aportou, ainda no final do Século XIX, o inglês Thomas Bridges com seus quase 30 anos de idade, uma mulher e um filho – recomendo o livro El Último Confín de La Tierra (1948, de Lucas Bridges)… Para isso, alugamos um carro, arrumamos uma mochila que compramos em Buenos Aires e vagamos pela Tierra Del Fuego: o plano era percorrer a Rota 3 de Ushuaia a Rio Grande, que, salvo engano, são as únicas cidades argentinas da Terra do Fogo, e conhecer o que tivesse pelo caminho ou fora dele.
Ligadas por um pueblo chamado Tolhuin, nossa primeira parada, Ushuaia e Rio Grande (uma cidade desoladora, com suas ruas e avenidas largas e sem ninguém, assemelhando-se quase a uma cidade fantasma, mas que nos reservava as instalações e o museu das primeiras Missões Salesianas) estão separadas por quase 230 km de estradas. Não apenas paramos em Tolhuin, com sua igrejinha, casas e vidas isoladas, mas, neste dia, atravessamos a Cordilheira do Andes, sentimos a mudança de uma paisagem de montanha que se transforma em bosque e que se transforma em estepe. Chegou um momento, já próximo a Rio Grande, que a Rota 3 parecia estar cortando um deserto – quilômetros e quilômetros de uma paisagem, a olhos nus, vazia, desértica, sem nada. Ao longe a linha do horizonte se perdia, e não víamos nada a não ser o vazio de uma geografia perdida no tempo, mas, aos poucos, sendo encontrada pelo Oceano Atlântico. Momento da viagem eleito por Tatyana como o ponto alto deste desvio pelos arredores da Terra do Fogo.
No entanto, desde o início, meu objetivo era mudar a direção em algum momento da Rota 3, pegar a estrada vicinal para o Cabo de San Pablo, percorrer, em estrada de barro ou areia ou rípio, cerca de 45 km (de ida e, claro, 45 km de volta risos).
Queria na verdade conhecer o Desdemona, um belo navio enferrujado e gigantesco perdido e encalhado em uma baia fueguina…. Viajar quilômetros a fio por estradas de barro pode, a principio, causar uma sensação de labirinto se, no caso argentino, a sinalização não fosse tão precisa, com placas, a cada curva, descida e subida, indicando constantemente curva perigosa, declive e aclive. Com uma sinalização assim, de fato, nos sentimos seguros até chegarmos ao Cabo de San Pablo, onde se encontrava o Navio Desdemona com sua beleza estrangeira, sua hélice enorme e a ferrugem tomando conta de tudo – a imagem de um barco naufrago, e, ao mesmo tempo, do significado de estar distante de tudo e, principalmente, de casa. Tatyana ficou emocionada, eu fiquei com a sensação de dever cumprido e emocionado, e o que não conseguimos registrar em imagens guardamos em nossas memórias de viajantes: ao longo desta rota secundária, dezenas de famílias acampando nos inúmeros córregos formados pelas águas que descem das montanhas, centenas de lamas (?) ou guanacos (?) no caminho, estâncias, casinhas perdidas no isolamento daquela paisagem austral.
(Nestes dois dias, encontramos uma família de Fortaleza, CE, que, em um 4×4, vinha cruzando todo o território chileno, rodamos cerca de 750 km contatos e cobrados pela locadora do carro e, após horas e horas sem se alimentar, comemos uma das melhores pizzas que a fome não é capaz de julgar em uma birosca na cidade de Rio Grande).
Fotos no Flickr:
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