Junho 21, 2008

 

 

Hoje amanheci pensando em sacar dos rendimentos domésticos uma quantia pra comprar três livros novos que saíram no mercado editorial brasileiro pela Companhia das Letras, cujo Boletim de Junho de 2008 que chegou a minha caixa de mensagens informava sobre os lançamentos da editora.

 

 

Livros:

 

Blackwater: Ascensão do Exercito Mercenário mais Poderoso do Mundo

(2008, Jeremy Scahill)

 

O Jovem Stálin

(2008, Simon Sebag)

 

Diário de Um Ano Ruim

(2008, J.M. Coetzee)

 

 

E o sol amanheceu cada vez mais forte!

 

Fevereiro 26, 2008

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INLAND EMPIRE

Vi no início da noite de ontem.

Laura Dern envelhecida, ainda que com cara de menina, como a marca visual mais emblemática. É talvez a primeira e última imagem de Império dos Sonhos | Império dos Sentidos. A partir de seus traços, todo o resto começa a se encaixar. Em todos os momentos em que ela aparece, praticamente em quase todas as seqüências, imediatamente, entramos em um labirinto de memória, resgatando-a de algum instante da obra lynchiana – Veludo Azul? Coração Selvagem? Qual outro? (Basicamente, porque este é um filme não apenas com Laura Dern, mas para e sobre Laura Dern). Não é aleatório que a vemos incorporar vários personagens e outros tantos que se realizam dentro do filme. Em uma determinada seqüência em que Dern interpreta outra personagem (filme dentro do filme), a vemos contracenando dentro de uma outra história, que, possivelmente, remete para um caso que ela terá com outro ator que faz seu parceiro romantico. De fato, o caso existe no filme que se desenvolve dentro de Império dos Sonhos | Império dos Sentidos, mas ainda não sabemos se existirá com os personagens atores que não sabem que estão em um remake. Em relação a esta cena, por sua vez, não sabemos se ambos os personagens interpretam a si ou aos personagens que interpretam.

Entenderam alguma coisa? Nem eu!

Aliás, David Lynch, em seu Império dos Sonhos | Império dos Sentidos, resgata muitos elementos de sua filmografia, obra, estética – ou do modo lynchiano, do seu fazer cinematográfico. Além de Dern, que assume o papel de protagonista (ou das protagonistas, pois no modo lynchiano um personagem não é apenas um personagem, nem uma história se configura apenas somente como uma história), temos Harry Dean-Stanton passeando por um estúdio de cinema em Hollywood, observando e acompanhando os ensaios como assistente de direção. Posteriormente, o vemos contanto as mesmas histórias para os vários passantes que encontra, aos ouvidos de quem quer ouvir e pagar por elas. Como Laura Dern, Stanton já participou de outros filmes de Lynch. Sua pele, assim como a pele de Dern, também já se encontra marcada pelo tempo, fincada e envelhecida em seu rosto, - face de um homem que já passou de uma certa idade e muitas batalhas.

(Império dos Sonhos | Império dos Sentidos sofre desta beleza, ou, dito de outro forma, também está marcado por um belo, aparentemente, desgastado pelo tempo inevitável – apesar de ser outro, mas, no fim, sempre o mesmo).

Já está na hora de aparecer um novo História Real.

(Não são apenas atores que David Lynch retoma, atores que trabalharam com ele em algumas de suas obras, nem tampouco somente o experimento Rabbits (2002), rodado poucos anos antes com personagens coelhos e em locação única como numa pintura, assemelhando-se, depois, ao tablado para, enfim, configurar-se como filme). Ao mesmo tempo, é retomado todo um modo de fazer cinema, iniciado ainda na faculdade quando Lynch era estudante, em 1965, na Escola de Belas Artes da Pensilvânia, Filadélfia. The Short Films od David Lynch (2002) é um resultado daquele tempo, iniciático.

“Tanto em seus curtas quanto em seus longas-metragens”, já escrevemos em outro momento, “David Lynch constrói a atmosfera clássica do seu cinema, a partir da percepção presa a detalhes em movimento, a nuances, permanentemente, frágeis, sorrateiras e que acontecem entre-imagens e, sobretudo, a complexidade de suas realidades diversas (múltiplas, paralelas e confluentes). Como espectros, seus personagens, em geral, vivem imersos no mundo nebuloso e bizarro dos sonhos, buscando outros mundos ou saídas para seus pesadelos, inserindo-se em dimensões paralelas ao cotidiano de suas vidas, que, às vezes, são ilusórias, mas, quase sempre, vinculadas as apreensões do mundo real”.

Com Império dos Sonhos | Império dos Sentidos não é diferente!

Vemos Laura Dern em sua casa no papel da jovem atriz Nikki Grace (ainda que envelhecida, no corpo e rosto de menina), sendo cortez, educada e delicada com a vizinhança. Depois, com a câmera sempre próxima e colada aos corpos, ela imerge em um sonho, pensamentos e histórias. Sua realidade então se desdobra em outras realidades, não apenas marcada pela presença do filme dentro filme, mas de outras realidades desenvolvidas dentro de uma realidade inicial. Aos poucos, a intensidade de uma agulha cortando um vinil, corpos ardendo em luxúria em um quarto de motel e uma outra personagem chorando de frente para uma televisão, insere-se na história de Nikki Grace, acompanhando-a a todo instante, medos, passagens, estúdio de cinema, entrada e saída de lugares obscuros, ruas, bares e casas de shows. Nesse invólucro, perpassamos por realidades paralelas, múltiplas e confluentes que, intensamente, perpassam por nossa mente já atormentada dentro de uma obra que, em ultima instância, acaba sendo um remake de toda uma filmografia.

(na seção Artigos & Ensaios, a filmografia comentada).

link

Fevereiro 20, 2008

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Masters of Horror

Pro-Life (2006, de John Carpenter) *****

Em um tom bucólico com a natureza ao vento deixando-se balançar em todas as suas arvores, galhos e folhas, o filme de John Carpenter logo rompe com a aparente calmaria, com o movimento natural e sublime da floresta. Todos os filmes de terror começam assim? Tatyana estava ao meu lado vendo essa seqüência inicial, ao mesmo tempo, quando, talvez, relembrava a abertura do episódio Family (2006, de John Landis), que nos mostra uma típica cidade americana amanhecendo com seus habitantes pelas ruas, com as crianças jogando beisebol, as mulheres abrindo seus carros, em mudança, com os homens jardinando e exercendo alguma outra atividade. Em Pro-Life (2006), ao contrário do episódio de Landis, essa calmaria é imediatamente rompida, violentada em seu movimento, transcorrer natural, sem que, como de costume, os personagens e a trama nos sejam didaticamente apresentados.

(Atravessando a imagem, da mesma forma que, posteriormente, a besta atravessa o seu corpo, vemos uma jovem correndo, desesperadamente, pela floresta).

Nesse momento, eu tomei como que um susto! É quando, aos poucos, uma série de perguntas começa a tomar conta: Quem é aquela jovem mulher? Qual o seu nome? Do que ela está fugindo? De onde ela vem? O que aconteceu e o que acontecerá com ela? Ainda que em campos opostos, – suavidade e tensão, imobilidade e mobilidade, fixidez e fuga –, a natureza e a jovem Angelique Burcell (Caitlin Walchs) estavam, definitivamente, irmanadas no mesmo tom, na mesma poesia de seus corpos, impressa, paradoxalmente, com a imagem em câmera-lenta registrando cada passo de Angelique e a cadencia ininterrupta das matas, a partir de alguém que corria mas quase imóvel e de uma imobilidade nativa que parecia querer saltar.

As perguntas não cessam!

A cada seqüência, John Carpenter nos deixa atormentados com tantas imagens sem tantas explicações, personagens que, a todo o tempo, geram perguntas, situações e espaços que nos colocam diante de mais, e mais, indagações.

Em um determinado momento, depois que Angelique Burcell invade e quase é atropelada na estrada, essas perguntas estavam direcionadas para um carro estacionado diante de um portão, parado e como que a espera de alguém. A cada movimento do médico e da enfermeira que, quase atropelaram Angelique, passamos a nos perguntar sobre quem era Dwayne Burcell, por que ele não podia ultrapassar aquele portão, o que cometera e por que o temiam tanto? Perguntas que, seqüência a seqüência, atravessaram o espaço daquele hospital-militar (?), da barriga de Angelique em um crescendo sem fim, anti-natural, para gestar e fazer existir um corpo distinto do seu, diferente do que temos, ainda que próximo na violação e na proteção daquilo que pertence a nós, – ao nosso ventre.

Em Pro-Life, John Carpenter trabalha sobre um processo de invasões em cadeia: um corpo em deambulação que invade a imagem da natureza, que logo ocupa o espaço da estrada e depois atravessa os muros protegidos de uma colônia hospitalar – corpo que, por sinal, é duplamente violado e, imaculadamente, invadido.