IN TREATMENT
(primeira semana)
1
Na série In Treatment não tem como você reclamar. Ao longo dos seus episódios, há pelo menos um ponto de interesse: o que suscita em nós a busca por respostas para os nossos próprios dilemas, medos e angustias. Pelo menos em um momento da vida pensei em procurar um psiquiatra, psicanalista, terapeuta, psicólogo ou alguém do ramo – aliás, em algum momento da vida todos nós já pensamos em procurar ajuda. Lembro que eu tinha problemas sérios quanto a um certo comportamento que, de uma hora pra outra, desapegava-se do que estava vivenciando, abandonava radicalmente seja lá o que fosse. Isso acompanhado da ausência de qualquer sentimento, ora relativo a pessoas com quem mantinha alguma relação afetiva, ora a algum projeto profissional.
2
Estruturado em sessões de terapia, que, a cada dia da semana, Dr. Paul faz em sua casa com cada um dos seus pacientes, In Treatment está claramente posto em um dispositivo: o encontro entre personagens em diálogo baseado no plano/contraplano e na locação única. Dispositivo que, a rigor, obedece a natureza das sessões de terapia alicerçada no campo que existe entre o terapeuta e o paciente, que ora se comprime pelas tensões que se alastram, ora torna-se elástico pela aceitação do que se conclui. Em um e em outro momento, o plano/contraplano dá lugar a outras formas de montagem que nos mostram objetos da casa do Dr. Paul e outros espaços além da sala – como o banheiro e o quintal por onde entram e saem os pacientes a cada sessão de terapia.
3
A primeira paciente é Laura, uma jovem muito bonita e sensual que, aos prantos, abre a série e sua vida. Entre uma revelação e outra, sabemos que sua história com o namorado não vai nada bem, que na noite anterior chegou a ter um rápido affair com um desconhecido em um bar e, no final, revela estar apaixonada pelo seu terapeuta. Em nenhum momento, In Treatment parece querer abandonar a radicalidade do plano-contraplano, a locação única e uma estrutura baseada no diálogo. Entre um paciente e outro, In Treatment segue a risca o seu dispositivo com a sucessão dos rostos dos personagens no quadro, a geografia diminuta e restrita do consultório dominando o cenário e o poder da palavra guiando nossa imaginação o tempo todo.
4
Mesmo que, a cada episódio, leve o seu dispositivo à frente, aos poucos, In Treatment começa a se abrir, quando Laura se desloca para o banheiro e quando, no terceiro episódio, Paul beija seu filho. Ali vemos um outro espaço diferente da locação única, rompida também com as entradas e saídas do consultório de Paul pelos pacientes que torna cenário o lado de fora da casa. Ali também sabemos um pouco mais sobre a vida do terapeuta, que se abre por completo, ou quase, no quinto episódio com a ida a casa da sua terapeuta, mesmo que seja para uma conversa informal. Mas, na série In Treatment, o que fica latente é o envolvimento do terapeuta nas histórias de seus pacientes, o que dá pra entrever no nervosismo das mãos e do rosto de Paul em alguns momentos e na sua “confissão” final.
5
Nestes cinco primeiro episódios, que inauguram a primeira semana da série em exibição na HBO, um ponto é marcante nas narrativas: as questões relativas ao sexo, ao corpo e ao desejo – Laura e sua transferência erótica, bem como sua relação com o namorado, o affair no bar e o próprio terapeuta; Alex e a “ereção de um morto”, seu contato com o amigo Daniel; Sophie e o seu treinador; Jake e Amy, traição e decisão do aborto; a relação tênue entre Paul e Gina e todos os “nós” do trabalho do terapeuta e dos vínculos com os pacientes. Em todos os episódios, fica a lição da terapia para os que buscam na série respostas para seus problemas: o limite ético, a revelação do que se esconde, o confronto com os sentimentos.
# TRABALHO
Ontem foi um dia bastante exaustivo.
Passamos o dia todo com os gestores dos Cefet’s e escolas técnicas do Nordeste no Praia Mar Hotel, na Praia de Ponta Negra, uma de nossas praias urbanas. Em função de um curso de capacitação de gestão em EaD, que a Secretaria de Educação a Distância da UFRN ofertará para estes gestores da região, marcamos o encontro presencial para apresentarmos o curso, o Programa E-tec Brasil e levantar alguns pontos que dizem respeito aos desafios e dificuldades para implementação de cursos técnicos em EaD. Foi o representante do MEC quem abriu o evento, e a manhã iniciou a todo vapor.
(O grupo de trabalho que coordenei a tarde avançou em algumas questões).
O meu grupo contava com gestores e professores, basicamente, do Maranhão e Ceará, e levantou pontos na discussão geral que são primordiais para quem trabalha com EaD. Tais pontos se encaixam em três categorias: gestão do sistema (quais são os elementos que o estruturam?), gestão financeira (como, quanto e como remanejar recursos disponíveis ou não?), gestão pedagógica (questões relativas ao acompanhamento, produção de material e avaliação dos alunos).
(Ainda consegui ir almoçar em casa).
Uma questão, que um dos subgrupos fez, resume um dos maiores e novos desafios destes gestores e professores, praticamente, pioneiros na implementação de cursos técnicos a distância no Brasil na magnitude que está sendo pensado pelo MEC: “Como convencer alunos (e os pais) que estão saindo do ensino fundamental, e ingressando no ensino médio, a optarem por um curso técnico a distância; e não somente isso, como, antes de tudo, motivá-lo a permanecer no curso e construir no mesmo a autonomia necessária a um estudante de EaD?”. As aulas práticas também surgiram como desafios, já que os editais que legislam cursos desta área exigem uma carga-horária correspondente a quase 40% da carga-horária total do curso – o que eu não tinha me dado conta até um dos participantes chamar a atenção para o problema, ou seja, para quem trabalha com EaD em uma dimensão maior e a partir de geografias bem diversas da modalidade presencial. Outro ponto apresentou-se na necessidade de serem capacitados no passo a passo para saberem montar um sistema e pensarem o modelo de EaD para as suas instituições e, sobretudo, a definição dos sujeitos envolvidos no processo.
(Uma forma de viver).
Agora meu corpo está cansado (é o que dá deixar de caminhar) e a minha garganta doendo (muita gente, muitas conversas, voz alta). Ao menos, eu não estou mais sentido tonturas, falta de equilíbrio e vertigens, mas ainda não posso tomar café, não durante os dias e o período de tratamento. Se tudo correr como espero, ainda hoje verei No Country For Old Men (2007, Irmãos Coen) que baixei da Internet e amanhã o filme brasileiro que está na programação da sessão Cinemark Cult: Via Láctea – não sei de quem é, do que se trata, quem são os atores, se falaram bem, ou se falaram mal. Mas isso não importa, já que ver filmes voltou a ser interessante.
TERRA ESTRANGEIRA
(Entre 15 e 24 de janeiro de 200
Um filme me levou a fazer uma viagem!
Em nossos planos, a Argentin – com sua belíssima e charmosa capital – sempre figurou na lista das viagens que realizaríamos ao longo de nossas vidas. Mas o que Tatyana não sabia é que, quando poderíamos ter ficado apenas em Buenos Aires, o desvio para Ushuaia atendia a um chamado cinematográfico (ainda que, continentalmente, distante da imagem real que ficara em minha memória e que fora registrada em um filme brasileiros dos 90) e não apenas para viajar para uma cidade escondida no fim do mundo, encostada no final (ou no início) das Cordilheiras dos Andes e que, a cada movimento, gera a sensação ininterrupta do nada e um permanente contato com o início de tudo. Então, logo a Patagônia entrou como motivo para estendermos as nossas férias para outras paisagens argentinas.
(Ao chegar a Terra do Fogo, o plano era alugar um carro – o que fizemos – e percorrer suas estradas e paisagens, pueblos e córregos, cidades e estâncias).
De fato, conhecemos tudo isso, e mais um pouco… Ushuaia, com todo o seu encanto de cidade portuária e com o título e atmosfera da última cidade do Globo, nos proporcionou belíssimos passeios duarante nove dias, como o que fizemos pelo Canal Beagle (um braço de mar que corta o continente desde o Atlântico e que já foi atravessado várias vezes pelo navegador brasileiro Amir Klink) e outro que realizamos pelas estradas, aparentemente, sem passagens, escorregadias, cercadas por um bosque enigmático de lenhas e castores (sendo a excursão off-road recomendável para todas as idades, sexos e credos… simplesmente, imperdível e imprescindível para quem quiser pisar em terrenos patagônicos mais ao sul!).
(O que me propiciou checar com Joaquim (o nosso guia off-road) como eram as estradas por outras partes fueguinas, pois já pensava eu na viagem pelos arredores com um carro alugado, uma mochila e com Tatyana do lado, é claro!).
Dos nove dias que ficamos em Ushuaia, dois deles aproveitamos para conhecer os arredores – se a locação do carro tivesse sido por três dias, teríamos dormido na Estância Haberton (uma fazenda histórica, com suas reservas, baias, museus internos e história): primeiro núcleo de colonização fueguino onde aportou, ainda no final do Século XIX, o inglês Thomas Bridges com seus quase 30 anos de idade, uma mulher e um filho – recomendo o livro El Último Confín de La Tierra (1948, de Lucas Bridges)… Para isso, alugamos um carro, arrumamos uma mochila que compramos em Buenos Aires e vagamos pela Tierra Del Fuego: o plano era percorrer a Rota 3 de Ushuaia a Rio Grande, que, salvo engano, são as únicas cidades argentinas da Terra do Fogo, e conhecer o que tivesse pelo caminho ou fora dele.
Ligadas por um pueblo chamado Tolhuin, nossa primeira parada, Ushuaia e Rio Grande (uma cidade desoladora, com suas ruas e avenidas largas e sem ninguém, assemelhando-se quase a uma cidade fantasma, mas que nos reservava as instalações e o museu das primeiras Missões Salesianas) estão separadas por quase 230 km de estradas. Não apenas paramos em Tolhuin, com sua igrejinha, casas e vidas isoladas, mas, neste dia, atravessamos a Cordilheira do Andes, sentimos a mudança de uma paisagem de montanha que se transforma em bosque e que se transforma em estepe. Chegou um momento, já próximo a Rio Grande, que a Rota 3 parecia estar cortando um deserto – quilômetros e quilômetros de uma paisagem, a olhos nus, vazia, desértica, sem nada. Ao longe a linha do horizonte se perdia, e não víamos nada a não ser o vazio de uma geografia perdida no tempo, mas, aos poucos, sendo encontrada pelo Oceano Atlântico. Momento da viagem eleito por Tatyana como o ponto alto deste desvio pelos arredores da Terra do Fogo.
No entanto, desde o início, meu objetivo era mudar a direção em algum momento da Rota 3, pegar a estrada vicinal para o Cabo de San Pablo, percorrer, em estrada de barro ou areia ou rípio, cerca de 45 km (de ida e, claro, 45 km de volta risos).
Queria na verdade conhecer o Desdemona, um belo navio enferrujado e gigantesco perdido e encalhado em uma baia fueguina…. Viajar quilômetros a fio por estradas de barro pode, a principio, causar uma sensação de labirinto se, no caso argentino, a sinalização não fosse tão precisa, com placas, a cada curva, descida e subida, indicando constantemente curva perigosa, declive e aclive. Com uma sinalização assim, de fato, nos sentimos seguros até chegarmos ao Cabo de San Pablo, onde se encontrava o Navio Desdemona com sua beleza estrangeira, sua hélice enorme e a ferrugem tomando conta de tudo – a imagem de um barco naufrago, e, ao mesmo tempo, do significado de estar distante de tudo e, principalmente, de casa. Tatyana ficou emocionada, eu fiquei com a sensação de dever cumprido e emocionado, e o que não conseguimos registrar em imagens guardamos em nossas memórias de viajantes: ao longo desta rota secundária, dezenas de famílias acampando nos inúmeros córregos formados pelas águas que descem das montanhas, centenas de lamas (?) ou guanacos (?) no caminho, estâncias, casinhas perdidas no isolamento daquela paisagem austral.
(Nestes dois dias, encontramos uma família de Fortaleza, CE, que, em um 4×4, vinha cruzando todo o território chileno, rodamos cerca de 750 km contatos e cobrados pela locadora do carro e, após horas e horas sem se alimentar, comemos uma das melhores pizzas que a fome não é capaz de julgar em uma birosca na cidade de Rio Grande).
Fotos no Flickr:
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