JOGO DE CENA
Instalação de outros parâmetros
O primeiro depoimento contém todo o filme, armazena ou revela todo o jogo de cena que, no decorrer das demais seqüências, determina, estrutura e organiza o documentário: o parâmetro da constituição da narrativa, eminentemente, documental – a partir, como em seus outros trabalhos, das narrativas autobiográficas, culturais ou históricas dos personagens. Em cena, especificamente no palco de um teatro e de costa voltada para os bancos, a personagem fala sobre sua vida, desejos e esperanças, frustrações, conquistas e realizações pessoais. Do sonho de ser paquita da Xuxa a sua participação no grupo de teatro e cinema Nós do Morro, localizado no morro do Vidigal, Rio de Janeiro, RJ, a narradora então revela-se a atriz que se tornou. A pedido do diretor, ela interpreta um trecho de uma peça de Chico Buarque, que, dramaticamente, aborda o universo materno e a perda dos filhos.
(Com o andar da carruagem, uma pergunta se torna necessária em relação ao depoimento dado pela primeira narradora: a personagem dá um depoimento para a câmera sobre sua vida ou interpreta um determinado texto?).
A questão aqui não é saber se os personagens dão um depoimento para a História ou interpretam uma realidade previamente escrita e ensaiada: verdade ou interpretação – para ser mais exato com o que de fato nos interessa. A partir deste novo trabalho de Eduardo Coutinho, nem tampouco nos interessa o binômio ficção versus documentário, o que é ou não realidade. O problema é que, em Jogo de Cena, o que vemos e ouvimos pertencem menos a História (Cabra Marcado para Morrer, 1984) e/ou ao imaginário dos personagens (Edifício Máster, 2002), sobretudo porque os narradores estão voltados muito mais para uma realidade, propriamente, vinculada a realidade do documentário como sistema fílmico em si do que mesmo para um dado conjunto de acontecimentos ou para as (re)invenções que os personagens fazem de si.
(Ancora-se, a cada depoimento, relato e narrativa, aos sistemas que estruturam, organizam e determinam parâmetros, especificamente, de cinema e, particularmente, do sistema de entrevista do cinema documentário).
O documentário em si
O que vemos e ouvimos, em Jogo de Cena, transcende as narrativas de caráter organizadas em volta de um conjunto de fatos históricos ou culturais. Em Cabra Marcado para Morrer (1984) e em O Fio de Memória (1988), ainda que, marcadamente, de cunho autobiográfico, as narrativas prendem-se a algum dado que não pertencem as narrativas em si, nem, diretamente, as narrativas propriamente documentárias como presenciamos agora neste último trabalho de Coutinho. Encontram-se, cada uma a seu modo, presas a questões, dados e realidades sempre externas, sem apresentarem componentes que possamos usar para compreendermos o processo de narrar e que seja central e pertencente a proposta do documentário. Ao falar sobre sua experiência de vida relacionada a Ditadura Militar, em um quintal de uma casa localizada no interior do Rio Grande do Norte, Elizabeth Teixeira, por exemplo fala de si e da História mas não do próprio ato narrativo.
O que veremos somente na segunda fase da carreira documental de Eduardo Coutinho, com filmes como Santo Forte (1999) e Edifício Máster (2002): fase voltada menos para a história coletiva e mais para as histórias pessoais – ainda que, em seu cinema, o diretor promova uma permanente confluência entre o que pertence a História e, ao mesmo tempo, o que pertence também ao indivíduo. Principalmente em Edifício Máster, ainda que os personagens falem, especificamente, de si, as narrativas se organizam em torno do ato de narrar, vinculam-se aos componentes que lhes permitem fantasiar e imaginar realidades sobre suas vidas – a criar, de fato, todo um sistema imaginário e de (re)invenção constante. O que proporciona aos personagens, a partir de um sistema de conversação, reinventarem-se em frente à câmera e à magia do cinema, mas, sobretudo, a tornarem-se interpretes de si mesmos utilizando os mecanismos das narrativas autobiográficas.
(Re)invenção documental
A partir de um percurso que começa em Cabra Marcado para Morrer, perpassa todo um conjunto de documentários que tem em Edifício Máster o seu ápice e chega a este Jogo de Cena, que coloca no palco atrizes famosas, desconhecidas e pessoas comuns, o que temos no cinema de Eduardo Coutinho é o desenvolvimento gradual do conceito de narrativa, relato ou depoimento de personagens. Mas o que, de fato, propõe Jogo de Cena, onde então chega a sua proposta documental, ao colocar a mesma história de vida na boca de mulheres diferentes, que as narram como se fossem suas e pertencentes as suas próprias trajetórias particulares? Ao emendar e, sistematicamente, intercalar a narrativa da segunda narradora com o que em seguida e, ao mesmo tempo, narra a atriz Andréa Beltrão, que nos conta a mesma história, com as mesmas situações e personagens, Coutinho parece querer nos dizer que as narrativas que vemos e ouvimos em um documentário não pertencem nem a História, nem tampouco ao ato em si de narrar (ao imaginário e subjetividade das pessoas).
Antes de tudo, as narrativas pertencem a todo um conjunto de parâmetros, especificamente, do sistema documental: dirigido, controlado e, matematicamente, construído pelo diretor – às narrativas documentais por excelência. O que, portanto, nos explica o corte que une a fala da segunda narradora a da atriz Andréa Beltrão, emendando a mesma história como se pertencesse a duas pessoas ou não pertencesse a nenhuma delas. Em um crescendo de (des)construção da idéia anterior de narrativa em seus documentários, explica também a nossa incerteza diante do relato da primeira personagem (relato natural ou dirigido?), a interpretação ou depoimento de Fernanda Torres (real e imaginária?), assim como a história de duas pessoas comuns ou atrizes desconhecidas que interpretam ou relatam a mesma perda do filho que reagiu a um assalto. Em várias seqüências e relatos “autobiográficos”, ou melhor, narrativas, propriamente, documentais, o tempo todo vivenciamos a experiência de que estamos diante de um documentário e não da História ou do ato em si de narrar.
(Assim, em seu Jogo de Cena, Eduardo Coutinho institui a primazia do controle do diretor, desvinculando-se, ao mesmo tempo, dos processos históricos e subjetivos que marcaram o seu cinema até o momento).
Em última instancia, as verdades e mentiras, o real e o falso, não importam mais ao documentário como princípio guia das narrativas autobiográficas, culturais e histórias dos seus personagens – até porque agora era começou a ser desvelada, posta nua para que todos vejam. Para Eduardo Coutinho, em seu Jogo de Cena, somos colocados diante da realidade interpretada por atrizes famosas e desconhecidas para atingirmos um outro grau do cinema documentário – o de que, em seu sistema, a História e a subjetividade importam menos do que a matemática do controle, da direção e da construção do filme. Portanto, se, primeiramente, nos interessamos por seu cinema pelo o que ele tinha de contato e proximidade de seus personagens com os processos históricos e culturais (Ditadura Militar, Abolição da Escravidão) e depois com o imaginário e subjetividade das narrativas autobiográficas, agora o que fica latente é que talvez nada disso antes fosse tão importante ao sistema documental coutiniano, cuja realidade dos seus documentários obedeciam a realidade, propriamente, de seu projeto, a partir da pesquisa de campo, da direção de atores e da montagem, extremamente, controlada pelas mãos do diretor.
